terça-feira, 29 de outubro de 2013

Praça das Artes – Brasil Arquitetura

 
Vista da rua Formosa - Vale do Anhangabaú

 
Fachada incorporado do antigo Cine Cairu e, na esquina, o
Edifício de Giancarlo Palanti

Inaugurada neste ano, na cidade de São Paulo, a Praça das Artes tem um modo de presença incomum. Uma forma – sim, forma -  expressiva que tira proveito do dispersivo, das justaposições abruptas, do aproveitamento parasitário dos espaços disponíveis. E o faz de maneira intencionalmente enfática, anunciado diretamente pela sua materialidade inesperada em aparente desacordo com a disposição lógica dos elementos da construção.
Uma articulação meio labiríntica, meio informe, logo, uma forma flagrantemente urbana.










Concebido como um complemento ao Teatro Municipal, a Praça das Artes incorpora o conservatório de música, mas expande exponencialmente o programa ao incluir escola de música, escola de dança e centro de documentação musical, bem como as sedes dos corpos artísticos do teatro (orquestra, quartetos de cordas e corais).

O complexo da Praça das Artes tem na sua implantação um dos pontos chave do projeto. Trata-se de uma ocupação do miolo de uma quadra, formado pela conjunção de vários lotes que se aglutinam e que tem saída para três das quatro ruas que a cercam (Rua Formosa que ladeia o Vale do Anhagabaú, a Avenida São João e a Rua Conselheiro Crispiniano). Trata-se de um lugar absolutamente central, tanto pela sua localização histórica onde praticamente a cidade de São Paulo surgiu, como por estar voltado para uma das áreas públicas mais conhecidas da cidade: o vale do Anhanbaú, entre os viadutos do Chá e Santa Ifigénia. Além do Teatro Municipal, com a praça Ramos de Azevedo coligada, a área concentra uma série de edificações destacadas: a sede da prefeitura, o edifício Conde de Prates de Giancarlo Palanti, o edifício dos Correios, o edifício Mirante do Vale de Zarzur e Kogan, o edifício Martinelli, o Mosteiro de São Bento, o edifício do BANESPA.

Apesar de sua situação impar, o local encontrava-se degradado, como de fato, todo o entorno. Lidar com essa espacialidade negativa, irregular, cercada de sobras e acumulações desregradas e comprimidas, enfim, encarar essa condensação de dificuldades buscando incorporá-las ao projeto revelou-se a principal decisão do projeto. 

Contra a tendência de subdivisão tradicional do lote urbano em porções individuais regulares, gerando construções coladas umas as outras, com frente para a via pública e sobras irregulares aos fundos – modelo por excelência da quadra fechada – o projeto transforma aquilo que comumente seria residual em princípio ativo do espaço, assim, desafia o padrão histórico do desenho das cidades que relaciona arquitetura e malha urbana. Ocupar as entranhas da quadra para daí facultar o acesso e o usufruto público, eis o princípio definidor do partido. Esgueirando-se pelas sobras negativas dos terrenos, o complexo aparece, desaparece e reaparece para a rua, contorna, envolve e percorre lugares imprevistos. Nesse verdadeiro ato antropofágico, incorpora duas construções existentes e abandonadas: o Cine Cairo e o antigo Conservatório Dramático Musical de São Paulo. De fato, efetua um verdadeiro atravessamento da quadra, quebrando as barreiras físicas e ideológicas da propriedade privada. O eixo dominante é o que corre no sentido do Vale do Anhangabaú-Rua Conselheiro Crispiniano, por onde o espaço escoa sem impedimentos no nível térreo. Do mesmo modo, essa abertura ocorre no acesso da Avenida São João, no qual o volume suspenso libera totalmente o acesso, constituindo-se assim numa verdadeira praça coberta.

Vista da Avenida São João com a fachada do Com-
servatório.e na sequencia o edifício Seguradoras, de
Oscar Niemeyer





 Praça coberta com vista para o vale do Anhangabaú
 



Os blocos programáticos são distribuídos ao longo desses 3 eixos, voltando-se para a rua Formosa e para a Avenida São João. Na intersecção localiza-se a torre administrativa e de apoio, ponto de referência junto com o pavilhão das escolas e restaurante, dos quais partem os “tentáculos” programáticos e volumétricos do edifício dos corpos artísticos, do centro de documentação e das salas de ensaio. Ligações diretas são efetuadas por tuneis passarelas: a que liga o restaurante ao aos corpos artísticos, o que conecta a torre ao pavilhão e o que segue rumo à Rua Conselheiro Crispiniano (que é um túnel-pavimento para ensaios). Esses três elementos são espécies de vetores direcionais do atravessamento do espaço.
 
 Vista da Rua Conselheiro Crispiniano

 
 
 
 

A Praça das Artes, em um primeiro momento, afirma um modo de ser que contraria as construções existentes com sua disposição intrusa, quase parasitária pelos interstícios do quarteirão. O padrão do edifício isolado com volumetria unitária e monolítica típicos do modernismo ou o padrão eclético com base, corpo e coroamento dispostos a partir de eixos de simetria (complementado pelas colunas e ornatos) parecem avançados no tempo em relação ao primitivismo do conjunto da Praça das Artes.

Por isso, a meu ver a opção de atribuir ao célebre concreto aparente brutalista, ao invés da secção rija e dura, a consistência mole da “taipa”, com a marca dos pranchões de madeira. Daí, a necessidade de passar a impressão de um plano não subdividido em pavimentos, algo que normalmente ocorre pela marcação rítmica dada por lajes, parapeitos e fenestração, reveladores do “empilhamento” de camadas horizontais de espaço. Na Praça das Artes, a sensação deveria ser de um muro único, como os das igrejas coloniais. Daí o misto de aparência musgosa e terrosa, o cinza do concreto aparente o ocre da argila. Assim, vão regulares surgem nos planos de fechamento, de fato como pequenas perfurações num todo cheio e consistente a partir de uma rítmica aleatória.





A forma contrastante com que a Praça das Artes se mostra se deve a sua aparência arcaica, tanto em relação aos palacetes ecléticos do início do século como antigo Cine Cairo e o antigo Conservatório Dramático Musical, quanto dos ilustres vizinhos modernistas: o edifício CBI Esplanada na rua Formosa, projeto de Lucjan Korngold, o edifício Seguradoras, na Av. São João,  de Oscar Niemeyer. As fachadas antigas foram não apenas restauradas, mas purificadas pela pintura branca, o que radicaliza a sua contraposição com o concreto aparente dos blocos ao redor, resultando em puros planos ecléticos. Mais exatamente um écran  superficial. Já a diferença com as torres modernistas se revela no contraste entre valores opostos: transparência e opacidade.

A presença marcante da Praça das Artes se dá de um modo paradoxal: é uma forma sem forma, uma arquitetura anterior a era da arquitetura, uma materialidade pretérita, primitivista mesmo. Curiosamente essa condição pré-construtiva é o que faculta o inesperado entendimento com a condição desgastada, deteriorada mesmo das banais edificações limítrofes. E aí sua lógica de ocupação e tratamento de superfície se demonstrar inclusiva e adaptativa ao incorporar as incongruências do lugar, não rompendo, portanto, com o contexto no qual se insere. Nesse sentido, o projeto se mostra menos projeto de edificação do que projeto de paisagem.



 




Não há como não atentar para esse lado expressivo do projeto, o estranhamento pela introdução de tais elementos incongruentes num meio de densa urbanização. Não há como não se remeter, quase num exercício surreal de rememoração de um tempo perdido, das primeiras ocupações da modesta vila de São Paulo da Piratininga a partir do triângulo religioso (Sé, São Bento e São Francisco) original e a expansão pelo eixo da Avenida São João atravessando o vale do Anhangabaú, com seu terreno alagadiço e com suas chácaras e plantações, com os primeiros calçamentos de terra batida e pedra e construções coloniais de paredes caiadas e grandes beirais. Não há como não atentar para as condições rústicas da primeira urbanização quando a construção e a paisagem bruta ainda se encaravam de igual.

Esse jogo inesperado do moderno e do arcaico, essa simultaneidade de temporalidades distintas, deve muito à poética de Lina Bo Bardi, cujo estranhamento era estratégia assumida para iluminar e abrir perspectivas inéditas. Esse procedimento estético não é estranho a alguém como Marcelo Ferraz, um dos autores do projeto, que trabalhou durante muitos anos com a arquiteta. Há todo um conjunto de projetos do escritório Brasil Arquitetura em que se percebe o transito entre o atual e o vernacular, ou mesmo a tradição construtiva popular, em especial casos de requalificação de estruturas existente. No entanto, sempre no limite de certo ecletismo construtivo. O que surpreende na Praça das Artes é o rigor e a radicalidade do projeto, o que me parece lhe confere certa vitalidade contemporânea.

Nesse ponto, o tema é inevitável: a questão da herança e da influência. Como o herdeiro assume, recolhe e propaga um legado? Como não se tornar subserviente, verdadeiramente sufocado pela força intimidadora da obra anterior a que se pretende ser fiel?

Tais são os dilemas da “Angustia da Influência”, célebre livro de Harold Bloom que trata da influência poética e do diálogo verdadeiramente bélico entre poetas, quando um poeta posterior distorce a leitura do poeta precursor, efetuando aquilo que o autor chama uma “má leitura” do texto original. Ou seja, efetuando um salto criativo que faz com que a influência deixe de ser simplesmente “uma transferência de personalidades” para se tornar um “poeta forte” com personalidade própria. Bloom esboça alguns “movimentos revisionários” de como o poeta se desvia da influência de outro.

- Desvio corretivo, quando é preciso encontrar na obra anterior um defeito que não está nela e daí corrigí-la;

- Completude por antítese, quando o poeta posterior isola um fragmento da obra anterior, retendo-o a seu favor para leva-la para outro caminho, como se o precursor não tivesse ido longe o bastante;

- Descontinuidade, quando opera o esvaziamento do antecessor, que é claro é sempre relativo;

- Despersonalização generalizante, quando atribui à obra fundadora o caráter de representação de certo estado geral, relativizando portanto o valor unitário do autor original;

- Retorno, quando já no final de sua carreira o poeta que vem depois se mostra de novo aberto à obra do precursor de tal modo que pareceria que o poema do precursor teria sido escrito pelo da posteridade.

Estas categorias evidentemente não esgotam as possibilidades de debate poético entre obras e artistas, mas servem de começo para se avaliar a fundo as possibilidades de “desleituras criticas” produtivas.

 

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

NIEMEYER I

BRUTALISMO PLÁSTICO – AUDITÓRIO DO EDIFÍCIO MANCHETE
Projeto: Oscar Niemeyer

Uma surpresa o auditório do Edifício Manchete[1], projeto de Oscar Niemeyer. Não o conhecia, mas a oportunidade surgiu porque lá ocorreu nos dias 23 e 24 de setembro o ARQFUTURO 2013.

Edifício Manchete - projeto Oscar Niemeyer 

Se o prédio da Manchete era bastante conhecido, a anfiteatro se mantinha oculto, escondido por trás do bloco principal. À primeira vista nada parece lembrar o projeto de Niemeyer. Nada daquelas coberturas ondulantes e expansivas como nos auditórios do Caminho Niemeyer, nada da forma aérea e rasante como o auditório do Parque Ibirapuera. Aqui o que vemos é uma imensa caixa de concreto aparente, cheio de volumes cúbicos que afloram na parte alta da grande fachada de entrada. Denso, pesado e estático, tudo faria lembrar a linguagem do brutalismo paulista de Paulo Mendes da Rocha ou de Lina Bo Bardi.




Mas o contraste de linguagem entre os dois blocos, contudo, é rigorosamente calculado. Para chegar ao auditório, precisamos passar pelos límpidos e elegantes espaços do saguão de entrada do edifício, atravessado por mezaninos e cheio de brilhos e reflexos; subir até o quarto piso, de onde vemos ao fundo a poderosa fachada-muralha de concreto.  Um pátio aberto separa os dois blocos, e o caminho rumo ao auditório ocorre por uma marquise recortada e vedada por panos de vidro.
Um espelho d’água à frente da imensa porta centralizada na fachada completa a disposição espacial. A brancura das placas de mármore do piso contrasta com o negrume do espelho d’água, que por força de seu alinhamento com o retângulo da grande porta, estabelece uma continuidade visual ao mudar de diedro, passando de plano líquido a plano vertical rígido. Acima, grandes caixas de concreto do qual afloram arbustos e folhagens, executam uma verdadeira dança geometricamente coreografada, de recuos e avanços qual um gigantesco relevo plástico.
 A área do pátio é relativamente pequena em relação às proporções amplificadas do auditório, cuja caixa de palco apresenta um imenso pé direito, como se vê no corte, alcançando a altura máxima da catenária que desenha a cobertura. Justamente o plano de fechamento em concreto é o que se volta para o pátio. Logo se compreende que a imensa porta alinhada ao espelho d’água fecha o vão que dá para o palco e que, se necessário se abre para o pátio, caso de espetáculos ao ar livre.



Tanto o espelho d’água como a dupla abertura do palco (para o interior e para o exterior), assim como o tratamento da circulação como promedade são procedimentos típicos do partido de Niemeyer nos teatros e auditórios.
Incomum é a forte materialidade e a absoluta frontalidade do plano da fachada-muralha. Ao contrário dos outros tantos auditórios desenhados por Niemeyer, em que o volume domina o espaço ao redor, pela sua posição centralizada, e por isso pode impor a força de seu desenho de perfil, no caso do Teatro do edifício Manchete, por ter sido construída em área bastante consolidada e em lote difícil, entalado por entre as construções existentes e encostas, a solução seguiu outro partido: assumir a frontalidade e investi-la de dinamismo plástico. Não há distancia a ser tomada para perceber a totalidade da forma, não há afastamentos ao redor por onde percorrer e assim apreender a unidade da forma. Nesse absoluto de frontalidade, os espaços são revelados aos poucos, de modo parcial e gradativo. 



Não obstante, observando com mais cuidado a implantação do conjunto, percebemos que esse mesmo constrangimento urbano – lote irregular e massa edificada no entorno - impôs também o alinhamento do bloco principal de 12 pavimentos junto à testada do lote, dispondo sua grande e cristalina fachada para a Rua do Russel e o para o Aterro do Flamengo. A implantação forma um L tendo no braço maior o edifício principal, e noutro, o eixo ao longo do qual se conclui com o auditório. Forma-se, assim uma dupla planaridade: uma, a "nobre simplicidade" da fachada do bloco principal; outra, a "severa grandeza" da elevação do auditório.
E apesar do expressivo e inusitado desta muralha frontal, a planta do auditório assume a configuração tipológica reconhecível, com as empenas laterais curvas em desenvolvimento radial típico. No interior, o diferencial são os níveis elevados nas laterais, que definem plataformas de serviços técnicos e dos quais se tem acesso aos bastidores. Esse setor assinala a abertura espacial da plateia e a empena de fechamento marca a curvatura do plano. Este recebe um tratamento escultural, marcado por um padrão geométrico de sólidos retangulares, claro contraponto aos cubos suspensos da fachada. E de fato, o conjunto das partes mecânicas envolve praticamente o núcleo espacial formado pelo conjunto palco/plateia: passarelas elevadas acima do teto acústico, coxias, urdimentos, camarins cercando o palco, salas de projeção contornando o fundo da plateia, infraestrutura técnica em piso inferior. É isso que provoca a sensação de que o volume exterior é muito maior que o espaço interior.

corte longitudinal do auditório



Diga-se de passagem, também não seria a primeira vez que Niemeyer se mostra assimilativo em relação à linguagem de outros arquitetos e de outras tradições não modernas. Já no início de carreira, na residência Francisco Peixoto (1940) em Cataguases/MG e em sua própria residência na Rua Sacopã (1942), o arquiteto demonstraria diálogo com o partido nativista de Lucio Costa. Na década seguinte, a proximidade com Sérgio Bernardes igualmente se expressaria na conciliação entre o industrial e o arcaico no projeto da Residência Edmundo Canavellas (1954), em Pedro do Rio/RJ. Em Brasília, é notória as alusões à antiguidade romana no Palácio da Justiça e no Palácio do Itamarati, onde são visíveis o tema das arcadas que envolvem o edifício, e as alusões à tradição grega no Palácio do Planalto e Supremo Tribunal Federal, em que o tema dominante são colunas e pórticos.
Pode ser que Niemeyer tenha se tornado repetitivo no final de sua longa trajetória, tenha se conformado no conforto de seu consagrado partido plástico, mas ao fim e ao cabo, continua surpreendendo, literalmente tirando “coelhos da cartola”. Sinal de que tinha alguma noção dos limites de seus procedimentos e da necessidade de contrariá-los mesmo que para continuar sustentando-os.




[1] O edifício foi construído nos anos 1960 para o grupo Bloch, cuja falência em 2000 deixou-o em estado de abandono.  Recentemente passou por um processo de revitalização –retrofit – liberando-o novamente para ocupação, agora por multinacionais do ramo de petróleo e gás, conforme reportagem da revista Veja (maio de 2012). Como não tenho informação sobre o projeto de recuperação, não há como garantir que se o projeto de Niemeyer foi respeitado na íntegra.

terça-feira, 6 de agosto de 2013


O ZYX levanta voo ... Piroux, Zissou, Louis, Dédé e Robert tentam levantar voo também. Rouzat, setembro 1910

Jeannine Lhemann, Royan, setembro 1926

Dédé, Rouzat, 1911

Automóvel Delage, Grande Prêmio do Automóvel Clube da França, Le Tréport, junho 1912

Minha prima Bichonnade, Paris 1905

Arlette Prevost, ou Anna la Pradvina e seus cães Chichi e Gogo, na avenida do Bosque, Paris, 1911

Bibi, Arlette e Irène. Tempestade em Cannes, 1929

Tempestade em Nice, 1925


JACQUES HENRI LARTIGUE – A vida em movimento

Muito da anestesia contemporânea se deve ao desencanto com as promessas da modernidade. A utopia do socialismo, a revolução russa, as vanguardas, o progresso liberalista, a livre competição do mercado, a nova cidade, nada disso parece ter se realizado em benefício da humanidade. O século XX firma-se como o século das catástrofes e da destruição. Duas guerras mundiais, o holocausto, o genocídio e a ameaça nuclear minaram qualquer perspectiva positiva, toda a confiança no futuro e esperança no gênero humano. A iminência do fim do ambiente natural é apenas a consequência funesta e sombria da sanha destruidora da modernidade.
Mas esta mesma modernidade, mais do que promessas propiciou um campo inédito de experiências liberatórias que não nos damos conta em razão de nosso ceticismo e desesperança com a contemporaneidade.
A exposição de fotografias de Jacques Henri Lartigue (1894-1986) no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro nos faz lembrar que a modernidade não é só tragédia, mas também um momento de intensificação vital. As fotografias de Lartigue especialmente da primeira metade do século, mostram “a  vida em movimento” com um entusiasmo e felicidade contagiantes.
O esporte, o lazer, as máquinas voadoras e os carros de corrida, o passeio no parque, as tempestades, as ressacas do mar, a beleza feminina, tudo exala um contagiante clima lúdico, nos advertindo que a vida pode ter momentos felizes, efêmeros talvez mas definitivamente efetivos e afetivos. Não há como não pensar na precisa e poética definição de Baudelaire de que “A modernidade é a tensão entre o efêmero e o eterno”, ou seja, na busca da integridade do transitório.

Zissou, Rouzat, 1911

Coco, Hendaye, 1934

Louis, corrida de bobsleighs, Rouzat, 1911

Zissou, Rouzat, 1908

A sombra e o reflexo: Bibi, Hendaye, 1927

Gérard, Willenmetz e Dani, Royan, 1926


Renée Perle, Biarritz, 1930


O entusiasmo pela vida exalado pelas fotografias de Lartigue tem, a meu ver algo da vivacidade de um Monet e da “Alegria de viver” de Matisse. A liberação do corpo, o frenesi cinético da velocidade, a excitação do voo e a atração pelas máquinas voadoras, a futilidade das “mulheres casaco de pele” (inevitável não pensar em Saul Steinberg) em seu passeio pela Avenida das Acácias, enfim, os motivos do fotógrafo denotam um sentimento positivo da existência, no limite um otimismo vital. Não há psicologia nesses retratados, apenas descarga de energia corporal, puro fruir. Sem drama, apenas movimento captado em sua mais intensa manifestação. Uma pirueta na piscina, um mergulho no mar, um salto para agarrar a bola, um golpe da raquete num jogo de tênis, um refrescar-se com jato d’água, um deitar-se ao sol, um deleitar-se à sombra, um equilibrar-se contra a tempestade, um exibir-se aos olhares, tantos são os instantâneos fixados com extremo frescor e espontaneidade. E com humor e comicidade sutis, inclusive nos títulos atribuídos, na ausência de constrangimento em situações banais ou nas mais artificiosas, na pose forçada sem disfarce, por pura diversão. Talvez seja essa justamente a razão de sua felicidade: a ausência de tensão moral, de uma ação plena e exterior que pode ser entendido como um bem-estar consigo mesmo, na medida em que tudo está em conexão sem esforço ou intenção aparente.
Tudo parece não ter peso, seja físico, psicológico, moral ou histórico. Corpos e objetos deslizam, alçam voo, flutuam, giram no espaço; chão e céu  ora se confundem como nas tiradas da praia, ora se contrastam como nos locais de competição de planadores. O peso da terra é sombrio, o vazio do céu é luminoso e entre eles corpos em suspensão.
Daí a ansiedade de Lartigue para, de alguma forma, capturar esses momentos felizes da vida. E isso se fazia não só pela captura do instantâneo fotográfico. Lartigue fazia questão de registrar sua existência cotidiana em diários, nos quais sempre começava pelo registro da condição climática e terminava com uma nota para o dia transcorrido. Outro dispositivo para eternizar o transitório, de efetivamente captar não apenas a imagem, mas a atmosfera, o clima, os odores, as sensações, as cores, os afetos, seriam os álbuns nos quais efetuava uma verdadeira operação de montagem construtivista sentimental, colando séries temáticas (como os mergulhos na piscina, o dia na praia) cuja simultaneidade de imagens dá a atmosfera do momento. Tornar esses momentos tangíveis, perenes na memória o levou a explorar técnica estereoscópica, que dá um efeito de 3D, ou seja, de profundidade espacial e relevo.
Não há como não apontar a indisfarçável identificação do fotógrafo com o seus motivos, sempre familiares, domésticos mesmo, na companhia dos familiares, dos amores, dos amigos. Ele não se oculta por trás do mecanismo, não se ausenta da cena, ao contrário, está sempre incluído nela, participa dos eventos que captura. O fato de utilizar preferencialmente câmaras manuais, definitivamente próximas ao corpo, com um disparador direto, não é casual, permite um vínculo direto entre o olhar e movimento para que mira, enquadramento e disparador sejam acionados no momento exato.


Diário agenda, 1914

Albúm 1927 - Da série A sombra e o reflexo

Na banheira com meu hidroplanador de hélice eólica. Foto tirada com minha
block-note Gaumont apoiada numa tábua, obturador disparado por Dudu.
Paris, Rua Cortambert, 1904.


É claro que há um fundo de melancolia, inevitável a quem vive integralmente a modernidade como apontou Baudelaire, melancolia daquele que vive a tensão de fixar o transitório, mas sabe que ele se esgota rápido. Guardá-lo na memória, mesmo com plena consciência de sua insuficiência e incompletude, é uma alternativa possível. O entusiasmo pela vida em movimento, Lartigue bem o sabe, é um instante de felicidade que logo passa e o que persiste é a modorrenta rotina e a coerção do mundo do trabalho. Lartirgue era um típico dandy, que resistia ao utilitarismo capitalista, um burguês que aproveitou o quanto pode a disponibilidade moderna, muito embora tenha passado por momentos trágicos do século XX. Um “avestruz”, tal qual ele mesmo se designava, preferiu mergulhar no mundo da juvenil felicidade privada, ao invés de ocupar-se dos acontecimentos trágicos da vida adulta.

JACQUES HENRI LARTIGUE – A vida em movimento
15 junho a 15 setembro

Instituto Moreira Salles – IMS - Rio de Janeiro